A reforma tributária vai expor empresas que não sabem calcular custo real

Durante décadas, muitas empresas brasileiras aprenderam a sobreviver em um ambiente tributário confuso, cumulativo e cheio de exceções. Nesse cenário, erro de custo nem sempre aparece. Ele fica mascarado pelo imposto, pelo crédito mal aproveitado ou pela distorção da cadeia.

Isso está prestes a acabar.

Com a reforma tributária, empresas que não sabem calcular custo real vão ser expostas rapidamente. Não por punição, mas porque o novo modelo reduz distorções e torna a margem — verdadeira ou falsa — muito mais visível.

O imposto sempre foi um “amortecedor” de erro

No sistema atual, muitos negócios operam com:

  • Custos mal apropriados
  • Margens estimadas “no feeling”
  • Formação de preço baseada em histórico
  • Repasse automático de imposto sem análise

Por incrível que pareça, o próprio imposto ajudava a esconder esses erros. A cumulatividade, a complexidade e os regimes distintos criavam uma névoa onde ineficiências passavam despercebidas.

Enquanto o caixa fechava e o faturamento crescia, ninguém questionava muito.

O que muda com a lógica da não cumulatividade

A reforma tributária traz uma lógica mais simples e, ao mesmo tempo, mais cruel: menos cumulatividade, mais transparência.

Quando o imposto deixa de se acumular ao longo da cadeia:

  • O custo real aparece com mais clareza
  • A margem falsa não se sustenta
  • O preço errado perde proteção

O que antes era compensado por distorção fiscal passa a cair direto no resultado.

Empresas que não sabem exatamente quanto custa produzir, comprar ou prestar um serviço vão sentir isso primeiro — e mais forte.

Margem falsa: o problema que muitos ainda não enxergam

Margem falsa é aquela que existe no papel, mas não na prática.

Ela surge quando:

  • Custos indiretos não são apropriados corretamente
  • Despesas operacionais ficam fora do cálculo
  • Créditos tributários são ignorados ou mal tratados
  • Preço é definido com base no mercado, não no custo

No modelo atual, muitas empresas convivem com essa margem falsa sem perceber. No novo cenário, ela desaparece rápido.

E quando a margem some, não há imposto para culpar.

Por que indústria, atacado e serviços sentem mais

O impacto da reforma não será uniforme. Indústria, atacado e serviços estão entre os segmentos mais expostos.

Na indústria:

  • Custo de produção mal detalhado
  • Rateios imprecisos
  • Falta de visão por produto ou linha

No atacado:

  • Margens apertadas
  • Alto volume
  • Dependência de formação de preço rápida

Nos serviços:

  • Dificuldade de mensurar custo real por contrato
  • Mistura de custo fixo e variável
  • Precificação baseada em horas estimadas

Esses setores operam com pouco espaço para erro. E a reforma reduz ainda mais essa margem de tolerância.

Preço errado sobrevive enquanto o imposto mascara

Aqui está a mensagem-chave que muita empresa ainda ignora:

Preço errado sobrevive enquanto o imposto mascara.

Quando o sistema tributário cria distorção, o erro fica escondido. Quando a distorção diminui, o erro aparece.

Isso significa que:

  • Empresas com preço mal calculado vão perder competitividade
  • Negócios que vivem de repasse automático vão sofrer
  • Ajustes que antes eram lentos agora serão imediatos

A reforma não cria o problema. Ela apenas o revela.

O erro de olhar a reforma só pelo impacto fiscal

Muitas empresas estão analisando a reforma apenas pelo prisma do imposto:

  • Alíquota maior ou menor
  • Crédito ou débito
  • Impacto no caixa

Isso é necessário, mas insuficiente.

O impacto mais profundo é operacional e gerencial. A reforma exige que a empresa saiba:

  • Quanto custa cada produto ou serviço
  • Onde estão as ineficiências
  • Qual margem é real e qual é ilusória

Sem isso, qualquer simulação fiscal será incompleta.

Custo real não é contábil. É gerencial.

Outro erro comum é tratar custo como assunto exclusivo da contabilidade.

Contabilidade registra.
Gestão decide.

Custo real envolve:

  • Produção
  • Compras
  • Logística
  • Financeiro
  • Fiscal

Se esses dados não conversam, o número até existe, mas não serve para decisão.

A reforma vai exigir custo gerencial, não apenas custo contábil.

O risco de descobrir tarde demais

Empresas que não se prepararem vão descobrir o problema quando:

  • A margem cair abruptamente
  • O preço deixar de ser competitivo
  • O caixa apertar mesmo com volume alto

Nesse ponto, o ajuste será emergencial — e caro.

Reprecificar às pressas, rever contrato no meio do caminho ou cortar custo sem critério quase nunca gera bom resultado.

A importância da base de dados única

Para enfrentar esse cenário, não basta “fazer conta melhor”. É preciso dados confiáveis e integrados.

Sem uma base única:

  • O custo muda conforme o relatório
  • A margem depende de quem calcula
  • A decisão vira debate, não ação

É aqui que o sistema de gestão deixa de ser operacional e passa a ser estratégico.

Um ERP bem estruturado permite:

  • Apropriação correta de custos
  • Visão por produto, cliente ou contrato
  • Simulações mais realistas
  • Ajuste de preço antes da dor

Sem isso, a empresa reage. Não antecipa.

A reforma como divisor de maturidade

No fim, a reforma tributária vai funcionar como um divisor claro:

  • Empresas que conhecem seu custo real vão ajustar rápido
  • Empresas que não conhecem vão perder margem — ou mercado

Não se trata de pagar mais ou menos imposto. Trata-se de saber exatamente onde se ganha e onde se perde dinheiro.

Quem já opera com controle gerencial sólido vai sentir impacto, mas se adapta.
Quem opera no improviso vai sentir choque.

Conclusão

A reforma tributária não vai quebrar empresas sozinha.
Mas vai expor aquelas que nunca souberam calcular seu custo real.

Enquanto o imposto mascarava, o erro sobrevivia.
Com menos distorção, a margem falsa desaparece.

Indústria, atacado e serviços precisam encarar isso agora, não depois. Porque no novo cenário, o preço certo não é mais diferencial — é condição de sobrevivência.

E quem descobrir isso tarde demais não vai culpar a reforma. Vai perceber que o problema sempre esteve dentro de casa, apenas escondido por um sistema que não existe mais.

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